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Re: Idealização e o Impensável

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+  From: Simonini@xxxxxxxxxxxxxx (Eduardo Simonini Lopes)
+  Date: Wed, 23 Jul 1997 21:17:07 -0300
Roseli Goffman escreveu:

>Quando tocamos a questao do impensavel, estamos procurando fazer uma
pratica de desterritorializacao, fugindo aos cliches. >Mas praticas de
desterritorializacao implicam a quebra da estrutura outrem ( vide Sexta
feira de Michel Tournier), e os riscos >da linha de abolição ao buscar-se a
linha de fuga.

>De qualquer modo, à maneira de Fernando Pessoa, viajar é preciso...
----------
No mês passado eu conversava com Gregorio Baremblitt a respeito do que vem
a ser esse "novo" ... como é que ele surge, pois se buscamos fabricar o
novo, não teremos na verdade novo nenhum. É por exemplo o que podemos ver
nas propagandas ao estilo MTV em que se busca criar uma forma nova de
montagem visual..., mas para mim esse novo fabricado já está morto antes
mesmo de nascer. Baremblitt me explicou que a única coisa que podemos fazer
é construir possibilidades para a emergência desse novo... e ainda assim,
quando o novo surge, nos pega completamente desprevenidos, desarmados e nos
deixa estarrecidos. Tornamo-nos sujeitos da subjetivação a rodear o
acontecimento com o olhar entre o vislumbramento, o susto e a confusão...
aturdidos pela nova referência que surge. "Narciso acha feio o que não é
espelho"... dizia Caetano.
Engraçado, escrevendo isso agora me recordo de uma experiência de "susto e
espanto ao novo" que me aconteceu na semana passada. Fui convidado por uma
revista local a escrever um artigo sobre relacionamento. Como não consigo
escrever por encomenda, abordei o assunto ao meu jeito, falando a
transitoriedade das relações. A editora chefe da revista (que é um
transexual) gostou do que leu e colocou meuartigo como matéria de capa.
Bem, na semana passada houve um coquetel para os colaboradores da revista a
fim de a mesma ser apresentada. Tomei um grande susto quando vi o meu
artigo.Eles o quebraram com fotos...pensei: "está horrível; vai ser difícil
de se ler isso aqui; estragaram com o que fiz". Mas me dei conta em seguida
que aquela era uma configuração realmente nova, impensada por mim... e me
deixou assustado, por mais que eu defenda a idéia de invenção.
Mas voltando a Fernando Pessoa, "Navegar é preciso, viver não é preciso."
Impossível é até mesmo falar sobre o impensável, pois para se viver é uma
grande incerteza e se inventar a vida é arriscar a não se chegar a lugar
nenhum... viver não é "preciso"; ao se viver não se tem um rumo muito
certo, muito delimitado... os ventos do acaso nos jogam de um lado para
outro.
Fernado Pessoa certa vez escreveu : "Pensar em Deus é desobedecer a Deus"
.. pois se pensar no impensável é em si uma heresia.
Estamos o tempo todo nessa lista querendo pensar o novo... querendo pensar
o impensável... e cometendo repetidas heresias. (risos) Mas melhor assim,
pois criamos condições,acredito eu, para que nos assutemos de tempos em
tempos... com o feio do novo. E às vezes nos assutamos tanto que até
pensamos: "sabe, vou sair dessa lista"
Acho que no final das contas a desterritorialização dos códigos nunca é
fabricada... é sempre um golpe do acaso, do medo, do risco, da morte, da
dor. Logicamente alguns pintam o cabelo de azul anil e saem pela rua
apregoando contra a sociedade capitalista... pensam que estão
desterritorializando algo, coitados... nada disso.
O novo é um parto... e não há nada mais parecido com a morte que o parto
(experiência única; transição assustadora). A desterritorialização quebra
com nossas referências mais queridas de vida; quebra com o nosso chão
protetor e nossas certezas que até ontem eram tão inquestionáveis.
E eu garanto que muitos de nós não sobreviveria a uma ruptura de
territórios.

Eduardo

 
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